As metáforas do Rock in Rio para a Qualidade de Software

Matheus Franco

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Analista de Growth

Atualizado em:

8/5/2026

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O Rock in Rio é o maior evento de música do mundo e, em 2024, realizou uma edição comemorativa de 40 anos (o festival começou em 1985, mas, atualmente, é realizado a cada dois anos). Desde a década de 80, muita coisa mudou, assim como as pessoas e o mundo em si. No entanto, a magnitude do projeto aumentou exponencialmente e, como tudo que envolve alta tecnologia, há riscos e contratempos. E prevenir problemas tem tudo a ver com a essência da Engenharia de Qualidade de Software.

Seria óbvio pensar que um festival com sete dias inteiros de atrações nacionais e internacionais está sujeito a dificuldades tecnológicas. Sim, ele realmente está. Mas o Rock in Rio de 2024 apresentou questões que se mostraram verdadeiras metáforas para pensar em qualidade e testes de software.

E este artigo não fala da dificuldade na compra de ingressos online ou nas filas virtuais enormes que não levam a lugar nenhum. O que vamos refletir é sobre episódios durante a apresentação dos artistas. Alguns deles bizarros, no mínimo.

O cantor que não ligou para a experiência do usuário e virou meme no Rock in Rio

O dia 22/09, último dia do Rock in Rio, foi um dos mais procurados pelos fãs, que esgotaram rapidamente os ingressos para ver ícones do Rap/Hip-Hop/Pop do início dos anos 2000, como Mariah Carey, Ne-Yo e Akon. Os dois primeiros entregaram o que prometeram, segundo os críticos. Porém, o rapper sengalês-americano roubou a cena pelo lado negativo.

Nesse ponto começam as metáforas. Metáforas são figuras de linguagem que trazem uma relação de comparação. Pois bem, qual comparação se pode fazer, pensando em Qualidade de Software, quando um artista que marcou uma geração com incontáveis sucessos retorna ao Brasil no maior festival do mundo e faz um show de mais de 1 hora “cantando” em playback (quando a música é gravada e não cantada ao vivo)?

E não parou por aí. Muitos artistas se valem deste artifício, porém Akon não fez nenhuma questão de disfarçar e, quando não poderia ficar pior, disparou para 100 mil pessoas na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro: “São Paulo, how are you feeling tonight?” (“São Paulo, como vocês estão se sentindo hoje?”).

Não há outra comparação a não ser o fato de que Akon não se preocupou com a qualidade do seu espetáculo, pensando em proporcionar a melhor experiência para seus fãs (ou usuários, metaforicamente falando). Em Engenharia de Qualidade, seria como se uma empresa fosse lançar uma nova versão de um aplicativo de enorme sucesso sem testes. O risco de problemas em produção seria grande, assim como a possibilidade de os usuários, que já gostavam do APP, se decepcionarem com a nova experiência proporcionada.

Como se não bastasse, Akon furou a bolha do Rock in Rio

Testes de Regressão são aqueles que, resumidamente, atuam para que novas funcionalidades mantenham o comportamento correto de um sistema, sem quebrar o que já existe. Pois bem, foi nesse sentido que Akon pecou da pior forma possível.

Já se encaminhando para o final da apresentação, o rapper sumiu do palco, deixando seu DJ tocando músicas brasileiras para entreter a multidão. 

Após alguns minutos, eis que surge o cantor dentro de uma bolha transparente enorme (sim, uma daquelas de eventos infantis e brincadeiras na praia) caminhando lentamente com o auxílio do seu staff. Ora, pelo andar daquela carruagem, coisa boa não sairia dali.

Dito e feito. Ao descer as escadas do palco em direção ao corredor que levava ao público em polvorosa, a bolha não resistiu e furou. Literalmente. Se a ideia dele era flutuar por cima do público, não chegou nem perto disso. Rapidamente, o cantor saiu da bolha constrangido, pedindo desculpas à audiência dizendo: “É, talvez não era para ser…”

Claramente, Akon inseriu um novo (e arriscado) elemento em seu show especialmente para o Rock in Rio. Porém, não se preocupou com os devidos testes para que aquele momento fluísse naturalmente, sem prejudicar toda a estrutura que já funcionava (apesar da decepção com o playback, hits da carreira do rapper não faltaram). Daí para frente, o show foi ladeira abaixo e nada mais funcionou. Ou seja, não houve uma estratégia de regressão bem definida e Akon se tornou piada nas redes sociais.

A metáfora dos milhares de usuários simultâneos

Para uma banda, entrar em um mega show para mais de 100 mil pessoas no Rock in Rio pode ser comparado a uma empresa enfrentar uma Black Friday: é de se esperar um pico de fãs/usuários sedentos pela melhor experiência de consumo. Aqui, uma frustração pode ser bastante prejudicial para a reputação de todos os envolvidos.

Foi o que aconteceu com o Journey, banda de rock veterana que se apresentou no dia 19/09, data dedicada ao gênero musical no festival. O show teve uma série de falhas técnicas, principalmente com o vocalista filipino Arnel Pineda.

Pineda, de 57 anos, enfrentou problemas em seu fone de retorno in-ear (como se não estivesse se ouvindo), cantou atrasado em relação ao instrumental e até mesmo perguntou à plateia se dava para escutá-lo bem. 

O desempenho, obviamente, não agradou e a pressão da grande quantidade de fãs simultâneos, somada ao enorme número de usuários da transmissão ao vivo e das redes sociais, causou estrago: uma semana depois, o vocalista cogitou deixar a banda onde trabalha desde 2007.

Notadamente, a preparação dos equipamentos e sistemas para suportar a demanda em condições adversas de um grande espetáculo para um enorme número de usuários simultâneos não foi bem dimensionada.

Rock in Rio

Foto por Mike Savoia/Reprodução/Instagram

Os testes end-to-end dos roadies

Roadies são os técnicos de apoio que viajam com uma banda em turnê, encarregados de lidar com as produções de shows. Cada artista tem seu próprio time.

No dia 19/09, o Rock in Rio preparou um line-up apenas com artistas nacionais batizado de Dia Brasil. Cada show contava com diferentes cantores mesclando seu repertório em uma só apresentação. Imagine, então, a dificuldade em ajustar os equipamentos para atender ao estilo de cada um, mesmo que cada segmento contasse apenas com cantores do mesmo gênero.

Metaforicamente, é possível comparar toda essa preparação técnica à mentalidade que uma empresa precisa ter para se preocupar com todo o ciclo de desenvolvimento de software, desde o início. Uma banda tem que contar com equipamentos de qualidade, bem testados, para que problemas não se propaguem em um show ao vivo, ou em um ambiente de produção. Em um evento do tamanho do Rock in Rio, isso se torna mais crítico ainda, porque os instrumentos e músicos podem ser da própria organização, por questões logísticas.

Essa equação não trouxe um bom resultado. Por isso, a experiência do público do show de abertura do maior palco do Rock in Rio, no Dia Brasil, foi prejudicada. Trazendo uma formação com cantores de Trap, gênero com grande apelo entre o público mais jovem, a apresentação atrasou em 1h15 por conta de uma sucessão de erros técnicos na aparelhagem de som. O show ainda foi interrompido três vezes, o que motivou vaias e gritos de “vergonha” vindos dos fãs..

Metáforas são formas de aprendizado baseadas em exemplos, geralmente mais lúdicos, para explicar situações mais técnicas. Os fãs do Rock in Rio são usuários de música e têm todo o direito de serem muito exigentes com a experiência entregue, afinal, pagam caro por um ingresso.

O Rock in Rio nada mais é que uma empresa e os sete dias de festival são o maior ponto de contato com os consumidores, em termos financeiros e de imagem. Os músicos são parceiros na entrega da experiência do público e, como nos exemplos que foram mostrados, não adotar uma cultura de qualidade com uma boa estratégia de testes pode representar um grande prejuízo para todos os envolvidos.

Matheus Franco

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Analista de Growth

Especialista em Growth Marketing, Matheus compartilha sua experiência técnica em grandes projetos voltados à Qualidade através dos conteúdos do Blog da Sofist.

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